Soja só para mulheres? A masculinidade e a soja Estudo da tradicional Universidade Harvard, nos Estados Unidos, coloca um ícone da dieta saudável sob suspeita de prejudicar o organismo masculino. Afinal, homens deveriam bani-la do cardápio?
por REGINA CÉLIA PEREIRA
Ovo, chocolate, carne, café... Por obra das incertezas da ciência,
esses alimentos já tiveram seus dias de má fama. Agora é
a vez de a soja ocupar o banco dos réus. E quem aponta o dedo acusador
são cientistas da prestigiada Universidade Harvard, nos Estados
Unidos. Eles observaram em um grupo de voluntários o elo entre
o consumo da leguminosa e a redução no número de
espermatozóides. Será, então, que os homens em idade
fértil deveriam expulsá-la da mesa? O urologista Renato Fraietta, do grupo de reprodução humana da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, faz uma leitura bastante cautelosa do trabalho americano: A diminuição dos espermatozóides foi observada principalmente entre os participantes que estavam acima do peso, ressalva. O que teria a ver a soja com a obesidade e a quantidade reduzida das células sexuais? Antes de qualquer explicação, vale destacar um de seus principais componentes, a isoflavona. Ela funciona como uma espécie de hormônio feminino, explica Fraietta. Sim, uma vez no organismo inclusive no deles , a isoflavona consegue a proeza de imitar o estrógeno. Daí ter ficado célebre como protetora contra tumores de útero e de mama nas mulheres, além de alternativa para aliviar os sinais da menopausa.
Ocorre que o elo entre infertilidade masculina e os quilos extras também
tem um quê hormonal. Homens acima do peso tendem a sofrer um desequilíbrio
nos hormônios, diz Fraietta. Neles, aumenta a produção
de estrógeno. Essa elevação, por sua vez, interfere
na espermatogênese, isto é, na formação das
células sexuais masculinas, cuja tropa acaba despencando. E aí
o consumo da soja, carregada do seu pseudo-hormônio, seria comparável
a um empurrão ladeira abaixo.
A nutricionista Martine Hagen, da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul, compartilha essa opinião. Não faltam
pesquisas atestando que seu consumo é benéfico, afirma,
lembrando as diversas evidências de que incluí-la no cardápio
ajuda a diminuir o risco de doenças cardiovasculares. Só
no Medline, uma biblioteca virtual que reúne trabalhos científicos,
há nada menos que 475 estudos realizados de três décadas
para cá apontando essa relação.
A nutricionista Cynthia Antonaccio, da Equilibrium Consultoria em Nutrição,
em São Paulo, outra estudiosa do assunto, acha que não dá
para extrapolar os resultados encontrados pelos americanos para a população
em geral. O tamanho da amostra é pequeno. Trata-se de um grupo
de 99 homens, pontua. Engrossando o coro, a nutricionista Vanderlí
Marchiori, da Associação Paulista de Nutrição,
chama a atenção para o fato de os voluntários de
Harvard terem sido recrutados em uma clínica de reprodução.
Se estavam ali é porque já buscavam ajuda para se tornarem
pais, deduz. Fonte:http://saude.abril.uol.com.br/edicoes/0303/nutricao/conteudo_351965.shtml-
10/11/08 |